Barra Mansa: novo conceito de vida para pacientes psiquiátricos

por / terça-feira, 29 setembro 2015 / Categoria SUS que dá certo

P. de S, 36 anos de internação no manicômio Heitor Carrilho, no Rio de Janeiro, uma semana de liberdade em Barra Mansa e novo encaminhamento para internação na Clivapa (Clínica Vale do Paraíba), em Quatis. Esse é um pequeno trecho da história da vida desse cidadão, que hoje é assistido pelo Centro de Atenção Psicossocial de Barra Mansa (Caps) e por profissionais da segunda unidade de Residência Terapêutica do município, instalada na Avenida Domingos Mariano, no Centro.

A vida, como ele mesmo relata, foi um grande drama. “Fiquei muito tempo num espaço pequeno, tomando injeção todos os dias. Tirando a comida, que era boa, era uma vida de cachorro”, relatou A.P, que compara o passado à atual realidade. “É bom ficar aqui. Me sinto gente”, garante o paciente. Junto com ele, a unidade abriga dez assistidos, todos do sexo masculino, portadores de transtornos mentais.

Situações como essa são comuns na vida de quem está na Residência Terapêutica, segundo o coordenador do Caps, André Luiz Jacob. “Nosso grande desafio é estabelecer vínculos de confiança com esses pacientes para promover sua cidadania e, paralelamente, romper as barreiras do preconceito existente na sociedade. A reforma psiquiátrica estabeleceu um novo estatuto social para odoente mental, com foco na garantia dacidadania, do respeito aos seus direitos e sua individualidade”, explicou Jacob.

Com uma equipe composta por cinco cuidadores, um técnico de enfermagem, uma cozinheira e um coordenador, a segunda unidade de Residência Terapêutica de Barra Mansa se distância de qualquer outro dispositivo de saúde do município, de acordo com Phelipe Sousa Mantesso, coordenador da unidade. “Aqui é a casa deles. Tiramos esses pacientes da situação de internação em manicômios e damos oportunidade de ressocialização. Para isso, é imprescindível que a sociedade tenha um olhar mais humano e de compaixão com os assistidos, aprendendo a tolerar as suas diferenças. Eles frequentam com assiduidade o Caps, onde recebem acompanhamento médico, psicológico e de assistência social”, frisou.

Quem também fez questão de contar sua trajetória foi o músico Onofre Tadeu Pires, 61 anos, cujo histórico revela diversas internações na Clivapa. Diagnosticado com esquizofrenia, ele não sabe precisar quanto tempo esteve internado. Hoje, participa das aulas de música ofertadas pelo Caps e das oficinas do Centro do Idoso. Assim como os demais assistidos da unidade, o músico é medicado diariamente.

Mais retraído, um outro paciente mental disse não se lembrar detalhes da violência sofrida a machadadas que ocasionou a perda da sua mão direita e lesões no rosto.O fato ocorreu em julho de 2015 e, de acordo com Phelipe Sousa, até o momento a polícia não chegou aos agressores.

TRANSTORNOS MENTAIS – Segundo estimativas da OMS (Organização Mundial da Saúde), no século XXI, o índice de pessoas com problemas mentais saltaria de 6% para 15%. “A correria do dia a dia, o excesso de compromisso e informação têm ocasionado um relevante aumento nos casos de ansiedade e depressão. É preciso estarmos atentos ao tipo de vida que adotamos. Não temos como precisar dados sobre o número de pessoas com transtornos mentais, pois a situação ainda é bastante velada pelo preconceito. Sabemos, de maneira não oficial, da crescente procura por psicólogos e terapeutas nos consultórios particulares e das pessoas que recorrem, por conta própria, aos ansiolíticos, antidepressivos e outras drogas”, concluiu André.

A primeira Residência Terapêutica de Barra Mansa funciona no bairro Estamparia, também no Centro, com oito pacientes, em sistema misto, e com outras duas pacientes em período de adaptação. Uma terceira unidade está em estudo para ser implantada.

Fonte: Prefeitura Municipal de Barra Mansa
Fotos: Gabriel Borges  


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